Que o excesso de tempo que crianças e adolescentes passam em frente às telas é um problema, os pais já sabem. Mas equilibrar a relação dos filhos com o uso da tecnologia tem sido um desafio cada vez maior. Impedir é um caminho sensato? Em uma matéria publicada pelo jornal espanhol “El País”, uma família compartilhou a experiência de negar o acesso às telas ao filho de oito anos e de como ele havia ficado irritado e agressivo desde então. Depois da proibição, o receio: será que restringir a utilização de tablets, computadores e celulares atrapalha o desenvolvimento da criança?

 

O pediatra Lívio Francisco da Silva Chaves, do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), acredita que sim. “A primeira coisa que tem que se pensar é equilíbrio”, defende. Chaves explica que com limites claros dados pelos pais é possível proporcionar ganhos cognitivos e sociais.

“Um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, com quase cinco mil crianças, as dividiu em quatro grupos a partir do tempo de exposição às telas: até uma hora, até duas horas, mais de duas horas e as que não tiveram nenhuma exposição. As crianças que tiveram a exposição controlada em até uma hora, acima de seis anos de idade, mostraram habilidades, tanto cognitivas quanto velocidade de raciocínio, mais do que as que não tinham acesso às telas”, comenta o pediatra. Não é uma evidência científica, porém indica que a exposição controlada pode ser benéfica.

Tudo isso, no entanto, deve passar por um controle dos pais e responsáveis e requer atenção a questões como idade, conteúdo e tempo de uso das telas. “A recomendação é não estimular o uso até dois anos, há estudos que defendem a necessidade de proibição nesta idade e associação à exposição de tela a um risco de atraso na linguagem de até 49%. Por outro lado, a criança hoje vive inserida nessa era digital, não tem como não aceitar isso. Se tira totalmente, ela fica até limitada socialmente”, explica. Para Chaves, no entanto, alguns cuidados são fundamentais, como não passar um período prolongado de tempo em frente às telas e manter uma rotina que inclua, por exemplo, refeições com a família, exercícios físicos e atividades acadêmicas. 

Fique atento a algumas dicas do guia de mediação parental do programa “Internet Segura for Kids”, do Instituto Nacional de Cibersegurança da Espanha:

Supervisione, acompanhe e oriente – Prestar atenção no uso que seu filho faz da internet é uma das formas eficazes para mediar essa relação. Aproveite para dialogar sobre como e para que se usa a internet e apresente seu ponto de vista sobre como se comportar de forma segura e responsável.

Escolha o conteúdo apropriado para a idade do seu filho – Ajude as crianças a descobrirem sites que promovam o aprendizado, a criatividade e que possam aprofundar seus interesses.

Compartilhe as atividades – Sente-se com ele para configurar, por exemplo, opções de privacidade de redes sociais e jogos online. É uma boa forma de monitorar suas atividades e ao mesmo tempo educá-los.

Ajude-o a pensar criticamente sobre o que encontra online – Muitas informações falsas circulam na internet. Ensine às crianças a distinguir verdades de mentiras e a checar as informações.

Estabeleça regras e limites –Defina regras de acordo com a maturidade da criança. Tempo de conexão, tipos de aplicativos que podem utilizar e em quais momentos do dia o acesso está vetado, como na hora das refeições. Criar consensos na hora de definir esses acordos é uma boa forma de fazer com que sejam cumpridos.